Distribuição Populacional em Maceió: o que os dados do Censo 2022 nos revelam?
- Sidcley Santos
- 1 de mai. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: há 5 dias
DINÂMICA DO CRESCIMENTO POPULACIONAL DE MACEIÓ (1970 – 2022)
O Censo Demográfico de 2022 revelou que Maceió possui uma população de 957.916 habitantes, indicando um crescimento de 2,7% em relação ao levantamento de 2010. A densidade demográfica da capital é de 1.880,77 habitantes por quilômetro quadrado, posicionando-a na 13ª colocação entre as capitais brasileiras.
A análise desse processo de expansão populacional em Maceió sugere que ele foi determinado, em maior proporção, pelo saldo migratório positivo (o histórico fluxo urbano-rural [campo – cidade]), do que pelo crescimento vegetativo (diferença entre nascimentos e mortes). Tal fenômeno migratório exerceu um impacto direto e significativo sobre a estrutura urbana da cidade, influenciando tanto a ocupação territorial (e a consequente formação de novos núcleos habitacionais) quanto a pressão por infraestrutura e serviços públicos. Para visualizar a evolução desse fenômeno e sustentar a análise sobre o saldo migratório, apresenta-se a seguir o gráfico da série histórica populacional de Alagoas e Maceió:
População de Alagoas e Maceió entre os anos de 1970 e 2022:

O Censo Demográfico de 2022, realizado pelo IBGE, traz um conjunto robusto de dados que permite compreender, com maior precisão, a complexa reconfiguração urbana de Maceió nas últimas cinco décadas. Utilizando séries históricas obtidas no sistema SIDRA/IBGE, é possível identificar padrões de crescimento, estagnação e deslocamento populacional que moldaram, e continuam moldando, o espaço urbano da capital alagoana.
Outra constatação de importância crucial é a crescente centralidade demográfica de Maceió dentro do cenário alagoano. Em 1970, a capital abrigava 263.670 habitantes, o que representava 16,6% da população total de Alagoas. No entanto, essa proporção sofreu um aumento vertiginoso ao longo das décadas, atingindo aproximadamente 30,6% da população estadual em 2022, com um total de 957.916 habitantes. Esse salto de 16,6% para 30,6% em pouco mais de 50 anos evidencia a consolidação de Maceió como o principal polo de atração e concentração do estado, exercendo uma forte primazia urbana sobre os demais municípios e reforçando o argumento do intenso êxodo rural O gráfico 2 demonstra o crescimento populacional ao longo dá série:
Contudo, os dados mais recentes sugerem uma mudança de padrão. O Censo 2022 aponta que Maceió atingiu 957.916 habitantes, um crescimento modesto de 2,7% em relação a 2010. Esse ritmo revela um movimento de estabilização demográfica, em contraste com a forte expansão do passado. Ao mesmo tempo, a Região Metropolitana cresce de forma mais significativa, com destaque para os municípios de Rio Largo (37%), Marechal Deodoro (31%) e Satuba (66%), evidenciando um processo de metropolização e redistribuição da população, que escapa dos centros urbanos saturados em direção a áreas periféricas com maior disponibilidade fundiária e empreendimentos residenciais em expansão.
Tabela 1: População dos bairros de Maceió (censo de 2000, 2010 e 2022)

A análise dos dados revela que, enquanto determinados bairros apresentaram expansão demográfica, outros registraram retração no número de habitantes. Esse cenário reflete dinâmicas urbanas distintas, como a saturação de áreas consolidadas e a verticalização dos centros urbanos. Contudo, um fator determinante para a redução populacional em áreas específicas foi o processo de migração compulsória provocado pelo afundamento do solo, que forçou o esvaziamento de bairros inteiros e impulsionou a expansão em direção a novas fronteiras imobiliárias.
A análise dos dados revela que, embora Jacarecica tenha liderado o crescimento relativo com 68,2%, seu impacto demográfico foi pequeno em termos absolutos, com um acréscimo de 3.918 residentes. O maior vetor de expansão real foi o bairro Cidade Universitária, que somou 46.576 novos habitantes, registrando a segunda maior variação percentual (65,2%). No extremo oposto, o cenário de retração foi severo nos bairros Pinheiro (-71,8%) e Bebedouro (-88,8%), culminando no esvaziamento total do Mutange devido ao desastre geológico.
PARA ONDE CRESCEU A CIDADE?
Identificar os bairros que apresentaram expansão demográfica é, essencialmente, responder à questão: para onde a cidade cresceu? Antes de analisar os vetores locais, é preciso observar que Maceió atravessa um processo de desaceleração rítmica em seu crescimento populacional. Conforme demonstrado na série histórica abaixo, o ritmo de incremento, que era expressivo nas décadas passadas, atingiu seu patamar mais baixo no último período entre os censos:
Tabela 2: Crescimento populacional de Maceió a partir dos censos demográficos entre 1970 e 2022

Considerando que a população de Maceió atingiu 957.916 habitantes no último Censo, o crescimento de 2,7% observado entre 2010 e 2022 representa um incremento real de aproximadamente 25.168 pessoas. Esse volume populacional, embora positivo, confirma a tendência de desaceleração demográfica da capital quando comparado aos períodos anteriores.
Ao analisar o conjunto de bairros com variação positiva, verifica-se um incremento somado de 109.854 habitantes. Esse volume evidencia um expressivo processo migratório interno, impulsionado pela expansão imobiliária em bairros como Cidade Universitária, Benedito Bentes e Antares. Juntas, essas três localidades concentram 254.217 habitantes; incrementaram 77.527 novos moradores e representam 26,5% da população total de Maceió.
Para espacializar esses dados, foi elaborado um mapa coroplético que destaca os vetores de expansão demográfica, evidenciando as localidades que apresentaram aumento e diminuição da população:
Mapa 1: Distribuição populacional por bairros de Maceió, censo demográfico 2022

A partir da análise espacial do mapa, observa-se que o crescimento populacional de Maceió segue duas tendências principais. A primeira concentra-se nos bairros da chamada 'parte alta', com destaque para Cidade Universitária, Benedito Bentes e Antares. A segunda vertente revela um movimento de expansão em direção ao litoral norte.
Somado a esses eixos de expansão, um fator atípico e determinante alterou a redistribuição demográfica: o deslocamento populacional forçado pelo afundamento do solo, decorrente da mineração de sal-gema. Este desastre ambiental impôs a evacuação de milhares de residentes em bairros como Pinheiro, Bebedouro, Mutange, Bom Parto e parte do Farol, modificando profundamente a configuração urbana da capital.
Esse padrão reflete a dinâmica contemporânea da urbanização maceioense: enquanto as áreas centrais passam por processos de verticalização e adensamento, os novos projetos habitacionais buscam regiões periféricas com maior disponibilidade de terras e custos acessíveis. Além disso, a conversão de antigas áreas agrícolas, anteriormente destinadas ao cultivo da cana-de-açúcar, em loteamentos urbanos tem impulsionado a ocupação dessas novas fronteiras imobiliárias.
BAIRROS QUE APRESENTARAM REDUÇÃO POPULACIONAL
Avaliar a redução populacional de um bairro ao longo dos últimos 20 anos, com base nos dados produzidos pelos três últimos censos demográficos, também é essencial para compreender a complexidade das transformações urbanas em Maceió. Essa análise permite identificar tendências de esvaziamento, mudanças no uso e na função dos bairros, e até mesmo processos de deslocamento forçado. Além disso, revela como fatores como a saturação de infraestrutura urbana, a transformação de áreas residenciais em comerciais, e eventos ambientais extremos, como o afundamento do solo, impactam diretamente a configuração e o equilíbrio populacional da cidade.
Os três bairros que apresentaram as maiores reduções populacionais foram aqueles diretamente afetados pelo afundamento do solo: Mutange, Bebedouro e Pinheiro. O caso mais extremo foi o Mutange, onde a população foi totalmente evacuada, tornando-se a área mais afetada pelo desastre geológico. O bairro de Bebedouro registrou uma redução de 89% de sua população, enquanto o Pinheiro teve uma perda de 72% dos seus habitantes. Outro bairro impactado foi o Bom Parto, que sofreu uma redução de 38%.
No total, a perda populacional nesses bairros conforme dados do censo girou em torno de 30 mil habitantes, representando um dos deslocamentos populacionais mais significativos da história recente de Maceió. Esse deslocamento forçado alterou profundamente a configuração urbana da cidade, levando ao esvaziamento de áreas tradicionais e à redistribuição dessa população para outras regiões.
Outro aspecto relevante, visível no Mapa 1, é a redução populacional nos bairros próximos ao centro, localizados na parte baixa da cidade. Esse fenômeno é comum em grandes cidades, onde muitos moradores das áreas centrais optam por se deslocar para bairros mais afastados ou até mesmo para municípios vizinhos. Esse movimento pode ser observado no município de Marechal Deodoro, que registrou um aumento populacional de 31% entre 2010 e 2022, alcançando 60.370 habitantes.
Apesar de não apresentar a maior redução populacional no período recente, a análise socioespacial do bairro Jacintinho é essencial para compreender os mecanismos de estabilização, e, em certos casos, de retração, populacional nos bairros centrais de Maceió. Como um dos bairros historicamente mais populosos e de ocupação consolidada da cidade, o Jacintinho passou por intensos ciclos de crescimento ao longo das décadas anteriores, mas hoje revela sinais claros de saturação urbana.
Acesse o relatório completo:
Tabela 4: População por regiões administrativas

Mapa 3: População distribuída por regiões administrativas, censo 2022

A leitura dos dados do Censo Demográfico de 2022 revela importantes pistas sobre o processo de reestruturação urbana de Maceió e sua região metropolitana. Os padrões de crescimento observados entre 2010 e 2022 apontam para uma mudança significativa na dinâmica territorial da capital: a cidade não cresce de forma homogênea, mas apresenta vetores claros de expansão e retração, cujas causas estão enraizadas em fatores históricos, econômicos, ambientais e institucionais.
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